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sábado, 8 de setembro de 2012

As ruas da cidade já não eram mais as mesmas, nem mesmo aquele copo de café da dona Lourdes era tão especial. Ele era apenas mais um, entre todos os copos que juntei do molho de tomate.
Cida quis ir embora e me deixando todos os meus móveis , oras ! onde já se viu ?  pro diabos , ela  e os móveis, quem vai embora sou eu ! e fui.
Primeiramente passei pela padaria , senti aquele cheiro bom do pão das 5 :30 , saindo da fornada. - Não há cheiro mais gostoso que esse .-  comi um francês quentinho e um café  que não estava dos melhores.
Mais tarde, depois de rodar toda a cidade pensando onde eu poderia ficar , resolvi pensar em mim.
De repente me debrucei na graminha no farol da barra e senti a brisa do mar me empurrando . Deitei, senti, chorei e abracei o céu.
Abracei o céu.
O farol era o mesmo naquele momento.
Eu era o mesmo.
A grama nunca foi tão espinhosa e macia.
O que fazer quando tem que ir ?
IR .
Queria mesmo era jogar meu coração no mar naquele momento , pelo menos ele leva e limpa.
Muitas vezes eu fui a favor dos valores.
N'outras eu me perguntava o porque daquilo tudo, até chegar a conclusão de que se sentir preso ou prender alguém nunca é necessário, principalmente quando é hora de soltar.
Desapego.
Voltei para meu antigo apartamento , alí no barbalho. Estava a venda , mas nunca houve interesse. Tomei um banho e me sentei no sofá . A poeira me engoliu.
Olhei para o lado e havia uma caixa antiga , abri e havia algumas fitas de vídeo  e por incrível que pareça eu ainda tinha um VHS, seilá como chama.
Eu gostava muito da sensação de estar só . não só de solidão , de tristeza e carência, mas do tempo e eu.
Bom, coloquei um vinho e fui assistir as tais fitas.
A primeira delas era a formatura do meu irmão, risos. Só no começo, a edição era engraçada . coisas antigas , coisas que tornamos antigas, apenas pela escassez  de querer sempre mais e querer sempre o melhor. Eu era mais gordinho e chato, nossa ! Olha só o primo Theo, sempre comendo escondido, minha tia daria uns tapas nele naquela época. Hoje em dia , vai rir dele e se sentir uma boba ao lembrar do que fazia reagindo a isso.
Naquela época.
Meu irmão, tão diferente de mim, mas só eu posso dizer isso dele. Lembro que ninguém nunca entendia o que eu queria dizer e a resposta sempre era : Coisas de irmão. O que era , de fato, porém, era muito mais do que isso. Sempre soube que ele era afim da minha prima Joana, mas que cretino ! jogando olhares para ela , mas ele sempre foi bom nisso, não vou negar !
Meus pais tão orgulhosos .
Tão orgulhosos.
Não haveria orgulho naquilo para mim. Eu só queria mesmo era comer todos os doces da festa , voltar para casa passando mal e acordar como se nada tivesse acontecido.
Olhei as outras fitas e vi meus desejos , minha chatice, as pessoas legais e as pessoas chatas.
Elas foram embora.
Tudo vai , o que demora mesmo é saber quem vai primeiro.
Fui olhar a ultima fita, confesso que já cansado.
Era um belo sorriso para abir a cena, tinha esquecido como aquele sorriso era tão bonito.
Cida era tão bonita, tão cheia de vida. Fazia tempo que estávamos juntos.
Era tão cheia de vida.
Fiquei surpreso comigo neste momento .
Não senti falta dela. Eu estava vazio.
Eu estava vazio há muito tempo, mas era acomodado demais para ver isso.
Cida era tão bela. Nessa cena enquanto ela está lendo o livro no banquinho de madeira, eu lembro que eu estava a observando , desejando que aquela fosse a mulher da minha vida. Ela riu quando eu contei depois .
Riu.
Mas é engraçado mesmo.
O vinho acabou e a música do Bowie também. Ele as vezes é tão gênio que dá raiva. Sinto a mesma coisa quando ouço Marisa Monte em seus estados de amores e conformação , mas sempre tão boa nisso.
Acabou
Vou dormir e acordar vazio e tranquilo.
Cida deve passar aqui para tentar acalmar o que não tem nada de errado.
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Trim, Trim, Trim

- Alo
- Eu te amo.
- Cida.
- Eu não quero que vá embora
- Mas eu quero ir, aliás eu já fui, to aqui e você aí.
- Eu sempre quis que voce fosse o homem da minha vida.
- Eu também sempre quis que voce fosse a mulher da minha, mas a gente era mais bonito naquela época.
É , cida , a gente era mais belo. Não só entre nós. Não vale a pena insistir só pelo costume, pelo habito.
Desapegue . é isso o que você quer e é isso o que eu fiz .
Estarei sempre aqui.
Sei que voce sempre estará aí também.
( Cida chora)
( Cida chora)
- Eu continuo amando você.
- Eu to aqui, chora mesmo. A gente nunca desapega ao mesmo tempo.
( Cida desliga)

Tomei um café com gosto de dever cumprido.
Quero que a Cida fique bem, ela merece isso. Meu pão não veio tão gostoso como quando o da padaria perto da casa dela.
Cheguei no Farol.
Ele ainda continua o mesmo, as ruas da cidade parecem um pouco melhor agora.
Comprei também uma caneca muito bonita. Ela tinha uns pássaros desenhados , daqueles que fazemos tipo em v no caderno do colégio. voar.
Quis voltar aos tempos de escola.
Bem , Hoje a vista do farol está mais colorida.
O vento me empurrou e eu deitei.
Abracei  o céu, abracei a mim mesmo.

Um comentário:

On The Rocks. disse...

Essa menina escreve demais.

Bj